
As obras de recuperação do Museu Histórico Municipal de Guajará-Mirim, instalado no prédio da antiga Estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), trouxeram à tona um novo capítulo da história ferroviária do município. Durante os trabalhos, operários encontraram antigos trilhos que estavam soterrados no terreno onde ocorre a intervenção. A descoberta acrescenta um elemento de especial interesse histórico ao projeto de restauração, ao revelar vestígios materiais da estrutura ferroviária que marcou a formação e o desenvolvimento da região.
Os trilhos foram identificados durante a execução dos serviços, conforme relatos de trabalhadores envolvidos na obra. A descoberta também levanta a possibilidade de que outros vestígios da antiga estrutura ferroviária permaneçam preservados sob o solo, reforçando a necessidade de cuidados técnicos e patrimoniais durante o andamento da reforma.
Iniciadas em 4 de maio deste ano, as obras integram um projeto conduzido pela Jirau Energia, que prevê a recuperação do edifício histórico e a revitalização de seu entorno. A primeira etapa envolveu a organização do canteiro, o cercamento da área e a instalação das estruturas necessárias à execução dos serviços. O planejamento contempla recuperação estrutural, substituição e instalação de pisos, revestimentos, adequações elétricas, melhorias de acessibilidade e iluminação.
O projeto também abrange a revitalização da Praça dos Pioneiros, a construção de um anfiteatro para atividades comunitárias e a recuperação de duas locomotivas expostas nas proximidades do museu. Estão previstas ainda melhorias nos espaços destinados à exposição de peças, equipamentos e documentos relacionados à história ferroviária.
Mais do que recuperar uma construção antiga, a iniciativa representa uma oportunidade de preservar parte significativa da memória de Guajará-Mirim. O espaço que atualmente abriga o Museu Histórico Municipal foi concebido justamente para reunir, proteger e apresentar elementos da trajetória histórica da chamada Pérola do Mamoré.
Cláudio Furlanetto dedicou a vida à preservação da memória de Guajará-Mirim
Uma das figuras fundamentais nesse trabalho foi Cláudio Giuseppe Furlanetto, falecido em 2023, francês de nascimento e filho de italianos, idealizador e fundador do museu. Ele migrou para o Brasil no início da década de 1950 e estabeleceu vínculos com Guajará-Mirim, onde dedicou parte de sua vida à preservação da memória histórica e cultural do município.
Sua contribuição foi reconhecida pelo jornal A Pérola do Mamoré, que destacou a importância de seu trabalho para a criação e manutenção do espaço. Em homenagem à sua trajetória, a publicação registrou: “Seu Cláudio, como era conhecido, foi um dos ícones da nossa cultura, idealizou e fundou o nosso Museu Histórico Municipal de Guajará-Mirim, lutou, no início da epopeia, contra a falta de recursos para andamento do projeto”.
Comunidade propõe homenagem ao fundador do museu
A memória de Furlanetto também esteve presente nas reuniões de consolidação do projeto de reforma, realizadas entre representantes da comunidade e da Jirau Energia. Na ocasião, o professor Fábio Casara, representante da Sociedade Amigos do Museu, ressaltou que a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré “transcende a história local, sendo símbolo nacional”. Ele também sugeriu que o prédio histórico receba o nome de Cláudio Furlanetto, em reconhecimento à dedicação do francês naturalizado brasileiro à preservação do museu e do patrimônio ferroviário de Guajará-Mirim.
A descoberta dos trilhos soterrados ganha ainda mais significado diante desse histórico. Os vestígios encontrados estabelecem uma ligação concreta entre o patrimônio que o museu procura preservar e as estruturas que fizeram parte do funcionamento da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A ferrovia teve papel importante na circulação de pessoas e mercadorias e nas transformações econômicas e sociais da região dos rios Madeira e Mamoré.
A iniciativa integra as Medidas Compensatórias do Programa de Gestão do Patrimônio Arqueológico, Histórico e Cultural, no âmbito do licenciamento ambiental federal da Usina Hidrelétrica Jirau, com aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Além da recuperação do prédio, a proposta busca fortalecer a identidade cultural do município, ampliar as possibilidades de atividades educativas e estimular o turismo histórico. A expectativa é que, após a conclusão dos serviços, o museu ofereça melhores condições para receber moradores, estudantes e visitantes interessados na história de Guajará-Mirim e de Rondônia.
Com a identificação dos antigos trilhos, a reforma ganha uma dimensão que vai além da recuperação arquitetônica. O que estava escondido sob o solo agora se apresenta como mais um testemunho da história ferroviária regional e reforça a importância de preservar não apenas o prédio, mas também os vestígios materiais de uma época que permanece viva na memória da população. Com informações da Jirau Energia e do jornal Perola do Mamoré.
EMERSON BARBOSA
Jornalista | DRT 1108
Jornalista desde 2005
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