A Bolívia enfrenta uma das maiores crises políticas e econômicas das últimas décadas. Protestos, desabastecimento de combustíveis, inflação elevada e bloqueios em estradas já afetam hospitais, serviços essenciais e o abastecimento em diversas regiões do país. Em La Paz, milhares de manifestantes pressionam pela renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira, que assumiu o governo há apenas seis meses.
O agravamento da crise ocorre após o governo anunciar a redução dos subsídios aos combustíveis, medida que elevou os preços em até 163% e provocou forte impacto no custo de vida da população. A decisão desencadeou uma onda de manifestações lideradas por sindicatos, movimentos sociais, professores e setores ligados ao Movimento ao Socialismo
(MAS), partido dos ex-presidentes Evo Morales e Luis Arce.
Segundo analistas políticos, a instabilidade atual também está relacionada ao desgaste do modelo econômico implantado durante os governos do MAS. O jornalista e analista argentino Marcelo Cantelmi, do jornal Clarín, afirma que o crescimento econômico boliviano durante a gestão de Evo Morales foi sustentado principalmente pela nacionalização do gás natural, fator que ampliou a arrecadação fiscal e financiou programas sociais e investimentos públicos.
Entretanto, com a redução das reservas de gás e a queda das exportações para Brasil e Argentina, a Bolívia perdeu uma de suas principais fontes de receita. Especialistas apontam que o país deixou de ampliar investimentos estratégicos no setor energético, tornando-se excessivamente dependente da renda do gás e dos subsídios estatais.
Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo Morales e posteriormente presidente da Bolívia, manteve a política de subsídios aos combustíveis. O governo comprava petróleo e gás pelos preços internacionais e revendia internamente a valores reduzidos, estratégia utilizada para conter inflação e preservar apoio popular. Com o agravamento das contas públicas e dificuldades financeiras, Rodrigo Paz Pereira assumiu o governo defendendo ajustes econômicos. De perfil centro-direita, ele se tornou o primeiro presidente conservador da Bolívia após cerca de duas décadas de predominância política da esquerda ligada ao MAS.
A crise também possui forte componente político. O ex-presidente Evo Morales continua exercendo influência sobre sindicatos cocaleiros e movimentos sociais, especialmente na região do Chapare. Morales enfrenta atualmente acusações relacionadas a estupro de vulnerável e possui mandado de prisão expedido pela Justiça boliviana.
Os protestos ganharam força após a aprovação da Lei 1.720, que alterou regras sobre propriedades rurais no país. Organizações indígenas e camponesas reagiram à medida por temerem avanço da especulação sobre terras coletivas, ampliando ainda mais a tensão social. Para especialistas, a Bolívia vive hoje uma combinação de crise econômica estrutural, dependência energética, polarização política e disputa interna dentro do MAS. O governo tenta equilibrar medidas de ajuste fiscal enquanto enfrenta crescente pressão popular e instabilidade institucional.
Texto: Emerson Barbosa - Jornalista
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