A enfermeira Raquel Maria de Oliveira Negrão revelou que só descobriu a dimensão da crise financeira deixada pelo marido, o policial militar Danilo Lopes Negrão, após sua morte, em 2023. Segundo ela, os empréstimos contraídos para financiar o vício em apostas esportivas somavam quase R$ 1 milhão.
Em entrevista ao g1, Raquel contou que Danilo começou a apostar durante a Copa do Mundo de 2022. Com o passar dos meses, o hábito se transformou em um vício que comprometeu a saúde mental, a estabilidade financeira e a vida familiar.
De acordo com a viúva, o policial entrou em uma profunda depressão diante do crescimento das dívidas.
“Ele entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava perdendo a dignidade dele como homem”, afirmou.
Após a morte do marido, Raquel encontrou no computador uma planilha contendo o nome de dezenas de pessoas das quais Danilo havia tomado dinheiro emprestado. Entre os credores estavam amigos, instituições financeiras e até agiotas.
Ela afirma que o policial conseguia empréstimos porque era conhecido como uma pessoa honesta, o que fazia com que ninguém imaginasse o problema que enfrentava.
Família enfrentou dificuldades financeiras
Durante aproximadamente dez meses, período em que Danilo conviveu com o vício, Raquel passou a sustentar praticamente sozinha as despesas da casa. Segundo ela, as contas começaram a atrasar, enquanto o marido continuava recorrendo a novos empréstimos para realizar apostas.
A enfermeira também relatou que desenvolveu problemas emocionais em consequência da situação, chegando a apresentar reações físicas causadas pelo estresse.
Além do sofrimento pela perda do marido, ela passou a enfrentar cobranças de credores logo após a morte do policial.
Segundo Raquel, diversas pessoas procuraram a família exigindo o pagamento das dívidas, e algumas chegaram a fazer ameaças. Quase três anos depois, ela afirma que ainda sofre os reflexos financeiros da situação. Em razão de processos judiciais, a casa da família continua impedida de ser vendida.
Tratamento não foi concluído
Raquel conta que a família incentivou Danilo a procurar ajuda psicológica. Ele chegou a iniciar terapia, porém deixou de comparecer às consultas. Como nunca revelou aos profissionais de saúde que era dependente de apostas, não recebeu diagnóstico de ludopatia, transtorno caracterizado pelo jogo compulsivo.
Ela decidiu compartilhar a história nas redes sociais durante a atual Copa do Mundo após reviver a lembrança do jogo entre Brasil e Croácia, pelas quartas de final do Mundial de 2022. Segundo a viúva, naquela partida Danilo perdeu uma quantia significativa de dinheiro apostando na vitória da Seleção Brasileira.
Ferramentas de proteção para apostadores
Na época em que Danilo desenvolveu o vício, o mercado brasileiro de apostas esportivas ainda não possuía regulamentação específica.
Com a entrada em vigor da Lei nº 14.790/2023 e a regulamentação do setor em 2025, as plataformas autorizadas pelo Ministério da Fazenda passaram a oferecer mecanismos de autoexclusão, permitindo que o próprio usuário bloqueie seu acesso às apostas.
Além disso, o governo federal disponibilizou uma Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite o bloqueio do CPF em todas as casas de apostas legalizadas.
Especialistas e o Ministério da Saúde alertam que pessoas que apresentam sinais de compulsão por jogos devem buscar atendimento especializado o quanto antes. Familiares também podem procurar orientação por meio dos serviços públicos de saúde e das redes de apoio voltadas ao tratamento da dependência em jogos de azar.
Texto: Redação